segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os ninguéns




"As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns como deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte , por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata."

(Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

Um comentário:

Rita Dantas disse...

A semana que passou mexeu muito comigo.Fiquei indignada, emocionada, perplexa...com o sofrimento das pessoas na baixada fluminense do Rio de Janeiro, ao verem suas casas invadidas pelas chuvas. Essa gente "anônima" que trabalha tanto, trabalha longe, passa horas em condução, indo e vindo trabalho/casa/trabalho e que ainda têm que se deparar com a agonia de perder o pouco que têm. Essa gente que o Estado não olha, que um "bem favorecido" bucéfalo trata como se fosse de uma casta inferior, esquecendo que, no final, compartilhamos do mesmo pó.
Quero dizer que essa gente tem nome, sobrenome e merece um endereço digno.
Não sei como daqui, no meu microcosmo, posso ajudar.Desde já,entretanto, fica minha profunda solidariedade.