sábado, 31 de maio de 2008

Stromboli





O mundo se divide
Nos bons e nos maus
E nos dez mais elegantes
Nos livros da estante
E ela dançando
À beira do abismo
E ela dançando
À beira do vulcão Stromboli
Todos eles querem
Fama, poder Dinheiro e diamantes
Flashes excitantes
E ela nadando
Em lava fervendo
E ela entrando
Em erupção
Stromboli...
(Marina Lima)


Ato 1-É madrugada, ainda, quando os homens saem para pesca. Em suas casas, elas - as esposas - aguardam os seus maridos. Essa era a rotina em Stromboli. Mas aquele dia era especial. Após meses e meses de preces a Poseidon, pedindo uma rede que trouxesse o alimento, subsistência que fosse, e sem um rebumbar de retribuição...o desânimo adejava a embarcação. O canto era desesperançoso, mas eles perseveravam, esperando o porvir...

Ato 2 - No terceiro dia, em mar alto...já preparando o retorno, o inusitado acontece: do nada, atuns, milhares deles, caem nas redes dos pescadores. E eram tantos e tão grandes...milhares, a perder a conta. Uma correria se dá; uns jogam as redes; outros puxam; os de lá entoam uma canção de mar. Cada ato metodicamente compassado para fazer caber todos os peixes em cada barco. Mas tarde, haverá de ter festa na ilha.

Ato 3 - Motivação - Se, de fato, a vida é feita de instantes milimétricos, como dizia F.Pessoa, o relato da pesca acima é um exemplo precioso e espetacular. Stromboli, de todos os filmes guardados em memória, de longe é o que mais me encanta. Seja por mensagens subliminares ou pelo minimalismo das cenas. Tudo muito simples; sem complicar o óbvio. E do singular, faz-se o plural.

Ato 4 - Revendo a cena. Stromboli é um vulcão que fica em uma ilha do Mediterrâneo. No filme de Roberto Rosselini - GÊNIO!! Precursor do neo-realismo no cinema com Roma Città Aperta -, uma mulher, para fugir do aprisionamento de um campo de concentração, se casa com um pescador e vai viver com ele em sua aldeia. O que era a "saída", entretanto, revelou-se tão-somente mais uma forma de encarceramento. A vida em Stromboli era dura e ela enfrenta problemas para lidar com o cotidiano da ilha, com a rudeza do marido e da falta de visão da população local.

Ato 5 - A simbologia do filme, semiótica da linguagem, existe sim e faço uso dela para fazer uma referência/reverência a certas pessoas que não se entregam; que confrontam os vulcões; que não ficam inertes em situações que trazem inquietude. Como se dissessem: "é para vir, então venha, porque eu não vou me conformar"; ou seja, "com licença, eu vou à luta".

A cena acima é para uma certa Ana, dona de uma coragem severina.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Vaidade


Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?
Uma geração passa, outra vem;
mas a terra sempre subsiste.
O sol se levanta, o sol se põe;
apressa-se a voltar a seu lugar;
em seguida, se levanta de novo.
O vento vai em direção ao sul,
vai em direção ao norte,
volteia e gira nos mesmos circuitos.
Todos os rios se dirigem para o mar,
e o mar não transborda.
Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr.
Todas as coisas se afadigam,
mais do que se pode dizer.
A vista não se farta de ver,
o ouvido nunca se sacia de ouvir.
O que foi é o que será:
o que acontece é o que há de acontecer.
Não há nada de novo debaixo do sol.
Se é encontrada alguma coisa da qual se diz:
Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados.
Não há memória do que é antigo,
e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

(Eclesiastes)


Tem essa coisa que fica por dentro, remoendo, mastigando...por que manter uma situação que não traz mais satisfação? Você vê a imagem no espelho e o reflexo é envelhecido; não traz a alegria do novo. E você fica, perdura, insiste: por teimosia, covardia, vaidade! E a resposta é tão óbvia. Não está bom, então MUDE! Para que o aprisionamento? A questão é "como"...porque é difícil abandonar as velhas roupas e se acostumar com as novas.
Lembra a música, "eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim". O nada tanto assim é o escape; o deixa pra lá; mais tarde vejo. E os quereres aumentam; o tempo passa; o desejo vira impossibilidade. Por que tem-se tanto medo de se dar segundas chances?
Não sei. Procuro a resposta. A atitude.

Um tempo para coisa


Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:
tempo para nascer,
e tempo para morrer;
tempo para plantar,
e tempo para arrancar o que foi plantado;
tempo para matar,
e tempo para sarar;
tempo para demolir, e tempo para construir;
tempo para chorar, e tempo para rir;
tempo para gemer, e tempo para dançar;
tempo para atirar pedras,
e tempo para ajuntá-las;
tempo para dar abraços,
e tempo para apartar-se.
Tempo para procurar,
e tempo para perder;
tempo para guardar, e tempo para jogar fora;
tempo para rasgar,
e tempo para costurar;
tempo para calar, e tempo para falar;
tempo para amar,
e tempo para odiar;
tempo para a guerra,
e tempo para a paz.
(Eclesiastes)


...pelo espaço de um instante; afinal não há nada mais que o céu azul para a gente voar...

Sem tempo


Sem tempo...
Não tenho nome.

Não tenho cara.

Não tenho tempo.

Afora isto, sou para os outros a imagem que fazem de mim.

Esse nome.

Essa cara.

Esse tempo.

Uma idéia.

Mas não sou isto, nem aquilo.

Se quiser saber de mim,

Não me pressuponha.

Não me subestime.

Não me compare.

Não me en[quadre].

Não sou o que você pensa.

O meu peixe não está à venda.

Você poderá vê-lo.

Ao mergulhar, poderá tocá-lo.

Mas ele não te pertence.

Não sou o que você pensa.

A minha água é potável.

E ela parece fria enquanto ferve.

Gosto da língua portuguesa.

Mas não me basta o discurso vazio das doces bocas

Secas.

Eu preciso do som e do sal.

Tem que ter língua.

Tem que ter saliva.

Tem que ter pulso.

Tem que ter pulso.

Tem que ter pulso.

Agora

Tenho esse nome.

Tenho essa cara.

Tenho esse tempo.

Muitas idéias.

Mas se quiser saber de mim:

PRESTE ATENÇÃO!

do Lat. attentione

s. f.,

acto de atender;

aplicar o espírito fixamente em algo;

cuidado;

delicadeza;

cortesia;

(Eduardo Maldonado)


Temos todo o tempo do mundo? Temos? Lindo texto, Eduardo...em especial, o não me en[quadre]. Cada um é tanto; que não tem forma, forma, no espaço ou no tempo.

Tempo, tempo, tempo, tempo, tempo; cada um guarda mais o seu segredo...

domingo, 11 de maio de 2008

Lei da gravidade



No início, havia a maçã, que de mero fruto da macieira foi elevada à categoria de geradora do pecado original, símbolo da imperfeição humana. Também quem manda Adão e Eva comerem e gostarem da fruta? Pronto: parto, não parto. Parto. Estava feita a gravidade e a brincadeira ficou séria. Coisa da pesada!! A expulsão do paraíso (manda lá Campos Elíseos que é mais charmoso) trouxe conseqüências irreversíveis. O lúdico passou a gerar: gente. E da luz fez-se o humano.
Muito tempo depois, um tal de Newton descobre a Lei da Gravidade. Novamente, quem é a protagonista??? Ela, a bendita da maçã. E o que já não era simples ganhou status de existência. O homem...de ascendência famosa revela que sem a gravidade não haveria sol, lua, corpos celestiais, outros homens, NADA! A vida sequer existiria, nem mesmo os pais da criança.
A coisa se deu assim: o cara cismou em resolver um dilema pessoal. Sim, os dilemas pessoais são sempre causa de tudo. Pode pôr força na reza que é isso aí. Voltando à cena...o sujeito debaixo da árvore, lendo seu livrinho, fumando um cigarrinho de efeito relaxante (a história fala de uma certa erva da boa), ao som das cotovias, mastigando um pedaço de capim e curtindo uma fresca, numa nice. Daí a mitológica fruta cai em sua cabeça e o fulano pirou de vez...“por que uma maçã cai da macieira para o chão, em vez de flutuar?” – É sério, já com dó da coitada da fruta. E o cara formulou a lei da gravitação universal e a palavra gravidade ganha grau e intensidade.
-A gravidade é a força que nos puxa para baixo- É isso. Sem ela estava todo mundo numa boa, boiando por aí...gravitando, desplugado da terra. Leve, leve, livrinho para perambular. Mas ela veio e, diante do quadro, era preciso adaptar-se ao que havia. A fulana chegou, atraindo de um tudo para o centro da terra. Quando muito, se permitia um duplo twist carpado aqui ou um mortal para trás com meia volta, acolá. Nada muito além disso.
Pois a situação assim se desenhou. A lei da gravidade apareceu e ferrou geral. E nem adiantou o outro filho de Eva – Einstein – vir adiante com a história de que tudo era relativo. Conversa...o fato é que nascendo a criatura já começava o jogo em desvantagem. Se não fosse, por que a fêmea fica “Grávida”? Olha lá o nome, recheando o ser de peso, da concepção ao parto. E parte mesmo. Parte pra batalha...chorando, chutando: “se tenho que deixar o quentinho aqui de dentro, vamos logo para o ataque que o tarde já fez hora”. É o estado de graça e gravidade da gravidez física/da física.
Nascer com uma placa adiante avisando: -vai lá. A vida é boa à beça, mas você vai levar porrada se quiser ser gente. Vai sofrer; perder;ganhar; ver o chão de perto, com a água escorrendo pelas calçadas; levantando, devagarzinho, primeiro os braços, depois a cabeça...um suspiro, sacudindo a lama empoeirada das calças, olhando para o céu e tocando em frente. E depois, depois e depois, sorrindo novamente, preparando a gestação daquele que virá.
Porque vida é isso: “a ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo.”

sexta-feira, 2 de maio de 2008

São as águas de "maio"...


De manhã cedo, essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz, assim, feliz
De tardezinha, essa menina se namora
Se enfeita, se decora,
Sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada, essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois, parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

(Joyce)





Maio sempre foi um mês meio que meio...significativo (que expressa ou indica alguma coisa), incompreensível=inacessível à razão, por vezes. Recentemente, coisa de 2 anos pra cá, penso que o mistério se desfez ou a venda foi tirada dos olhos. Algo, neste período, sempre vinha: um começo; fim de partida; tempestade; medo; uma porrada e um sopro...enfim, a musiquinha aí em cima é para esta mulher que fez de sua passagem neste mundinho algo de valor. Beijo, querida titia.