terça-feira, 18 de março de 2008

O resultado


Laudato si', mi Signore, per sora Luna e le Stelle; in celu l'ài formate clarite et pretiose et belle. (Francesco d'Assisi)


No princípio Deus criou os céus e a terra. À parte sólida, chamou terra, e ao conjunto das águas, chamou mar.
E Deus viu que isso era bom.
A terra produziu verdura, ervas com semente, e as árvores de fruto.
E Deus viu que isso era bom.
E disse: “faça-se a luz.” E a luz foi feita.
E Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas.
Para reger o dia e a noite, Ele colocou no firmamento duas grandes luzes, a maior para iluminar o dia e a menor para iluminar a noite, e milhões de estrelas.
E Deus viu que isso era bom.
Criou, então, todos os seres vivos que se movem nas águas e na terra, e as aves.
E Deus viu que isso era bom.
A seguir, Ele criou o homem à sua própria imagem e disse.
“Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma companheira semelhante a ele.” Então, criou a mulher. “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra.”
E se eu pudesse avaliar o resultado agora, bilhões de anos depois, por maior que fosse Seu otimismo, dificilmente Deus veria que isso era bom.
Mesmo com toda Sua boa vontade.
Assim que o mundo ficou nas mãos do homem e da mulher, eles cresceram, multiplicaram-se, dominaram tudo, e começou uma confusão sem precedentes na história.
A partir daí, era só com eles.
E talvez eles não estivessem preparados para tanto.
“Comerás o pão com o suor do teu rosto”, Deus ordenou ao homem, sem prenunciar a crise que vinha pela frente, o desemprego, a carestia, a chatice de alguns chefes, o valor do salário mínimo e o imposto de renda. Esqueceu Ele de dizer, também, que a mulher ingressaria no mercado de trabalho e por isso exigiria, é claro, que o homem ajudasse na faxina, lavasse louça e tivesse que aprender a cozinhar, “eu já cansei de explicar qual é a colher de sopa, seu cretino.”
No item “Crescei e multiplicai-vos”, Ele mais uma vez Se mostrou bastante otimista.
Como é que Deus ia adivinhar que os homens seriam tão trapalhões em questões como justiça social, saúde e a educação para todos, e a população ia acabar nessa miséria? E a falta de consciência ecológica, e os problemas de saneamento básico, e as praias lotadas, e os engarrafamentos, e a violência, e as filas, e as favelas?
Não, Deus não era adivinho.
Quando deduziu que não era conveniente deixar o homem sozinho e criou a tal companheira para o coitado. Ele não podia prever que mulher gosta de discutir relação, adora fazer comprar no shopping e chora por tudo. Por isso, talvez, Ele não predisse: tentarás fugir desse inferno que virou a tua vida, pedirás o divórcio, mas o advogado dela exigirá até o teu último centavo.
Por outro lado, Deus ordenou à mulher: “procurarás compaixão a quem serás sujeita, o teu marido”, sem prevenir que ela estaria sujeita a um sujeito tão complicado e, o que é pior, sem determinar se ela precisava se sujeitar inclusive ao sapato dele no meio da sala.
Além disso, Ele esqueceu de comunicar detalhes importantíssimos como: acreditarás em tudo o que o teu marido disser e te darás muito mal, comprarás um brinco novo e ele não perceberá, aguardarás flores, todas as manhãs, e elas não chegarão nunca (a não ser que teu marido cometa uma besteira muito grande, minha filha).
Deus disse à mulher: “os teus filhos hão de nascer entre dores”. É verdade.
Mas ele não avisou: e para te ajeitares depois, só com quinhentos abdominais por dia ou uma lipo. Nem lembrou de anunciar: bebês acordam a noite inteira, principalmente se tiverdes uma reunião no dia seguinte. Nem informou: e quando eles crescerem, aí verás o que é bom, pois teus filhos não amarrarão os cadarços dos tênis, não avisarão que vão chegar tarde, julgar-te-ão uma chata e não sairão do telefone.
O fato é que a bagunça que virou este mundo de Deus (sem falar na programação da televisão) tomou proporções tão gigantescas que o mínimo que a gente pode fazer agora é inventar outro final pra essa história: até que os homens tomaram vergonha na cara e reinou para sempre a paz, o amor e a felicidade.
E Deus viu que isso era bom e ficou satisfeitíssimo com o resultado.

(Adriana Falcão)


Proposta: os textos de Adriana Falcão são uma deliciosa viagem ao cotidiano. Ela aproxima o leitor, expondo-o a uma realidade comum a todos. Daí a comicidade, o irônico, o rir de si mesmo. Nesta época de Páscoa, a proposta é reflexão. “Será que Deus mudou ou será que mudamos de Deus?”. Se Deus nos fez à sua imagem e semelhança, logo é imperfeito como nós. Ou nós somos imperfeitos como Ele...vá saber. Enfim, poupemos Deus e a Santíssima Trindade (poupemo-nos!!) e sejamos tolerantes com este Ser que deu sua vida por nós ou para redimir sua própria culpa de ter criado um mundo equivocado. Aprendamos nós! Cresçamos nós! Purifiquemos nós! BOA PÁSCOA A TODOS!

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